Gênero, Mulheres, Pensamento social

Mulheres que pensaram o Brasil

A área de estudos do pensamento social brasileiro engloba grandes temáticas da formação da sociedade, diferentes formas de pensamento intelectual e artística, diferentes culturas e formas de linguagem. O campo do pensamento social brasileiro assim como, também, as modernas ciências sociais, baseia-se, em sua maioria, em autores homens clássicos (MAIA, 2013). Aparecem temas e perspectivas historicamente e espacialmente situados, interpretações da cultura, sociedade, economia e política. Trata-se de uma história em permanente movimento, de um país que se pensa e vai se construindo e reconstruindo nesse processo (IANNI, 2000).

Uma perspectiva interessante para este campo é a da totalidade. Quer dizer, um pensamento que não dialogue apenas com o Brasil, mas que pense também dilemas modernos globais (MAIA, 2009). Nessa ótica, é valido pensar o Brasil atravessadamente aos estudos pós-coloniais e decolonais. Isso significa tomar o Brasil como um objeto que não se preste simplesmente a pensar de onde se está, mas também, por outro lado, que pensa criticamente em face às suas principais influências. Discutir o caráter colonial do consumo do conhecimento implica no afastamento da visão de mundo forjada pelos europeus, tendo em vista

“um lugar discursivo que pensa o moderno de forma global e descentrada, sem reduzir a periferia a simples receptáculo do centro” (MAIA, 2009, p. 163).

É oportuno pensar as referências brasileiras contextualizadas e conectadas com o mundo.

“O pensamento brasileiro tem muito a oferecer à teoria global, pois seu universo de imagens, narrativas e modos de cognição são peças importantes para a constituição desse lugar de discurso fronteiriço e para seu próprio adensamento crítico” (MAIA, 2009, p. 166).

Conseguimos fazer o discurso de nós mesmos com validade e legitimidade ao lugar que nos cabe no mundo? Sendo uma periferia conseguimos nos impor? O Brasil faz parte do mundo, nesse sentido é fundamental pensar sua singularidade contraposto a ideia de totalidade.

Quando se fala em intérpretes do Brasil, facilmente refere-se a autores clássicos homens. São eles, entre os mais citados, mas não únicos, Sérgio Buarque de Holanda, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Gilberto Freyre, Caio Prado Jr., Celso Furtado. As mulheres são minoria no pensamento social brasileiro e seus temas são considerados, muitas vezes, minoritários. O pensamento social feminino tem sido eclipsado pelo falocentrismo, não garantindo a alteridade e a diferença das mulheres (BUTLER, 2003; SEGATO, 2016).

Qual a importância de trabalhar com mulheres no campo do pensamento social? Existem alguns “ismos” da questão. A ciência e a história têm sido fundamentadas em estruturas políticas em que a autoridade é exercida pelo homem através de uma abordagem unilateral, manifestada no patriarcalismo, capitalismo, androcentrismo e sexismo. A invisibilidade das mulheres na história está ligada com a construção historiográfica predominantemente masculina e patriarcal, com íntima ligação ao modo de produção capitalista, ao trabalho e a divisão sexual do trabalho, além da ideia concebida de uma ciência neutra, objetiva e racional.

A proposta semanal desta série “Mulheres que pensaram o Brasil” é destacar mulheres de diferentes contextos e áreas de atuação (seja da academia ou não). O intuito é identificar e analisar as contribuições dessas mulheres para o debate do pensamento social brasileiro e, também, da questão regional. Esta iniciativa alinha-se às pesquisas realizadas na disciplina de Pensamento Social Brasileiro (lecionada pelos professores Ivo M. Theis e Luciana Butzke em 2018.2) do curso de Mestrado em Desenvolvimento Regional da Universidade Regional de Blumenau e, também, da pesquisa de dissertação que venho realizando neste programa.

A primeira autora mencionada foi Berta Ribeiro (Berta Ribeiro: o legado indígena no cotidiano brasileiro) e a próxima será Vânia Bambirra. Construir um futuro equitativo dialoga com questões à margem do desenvolvimento e do pensamento. Considerar uma ciência militante, que abraça essas tarefas, é buscar a legitimidade de uma ciência para todas e todos, sem exclusão, questionando o sistema que envolve as universidades, as regras, os códigos e as normativas. Considerando, além de tudo, narrativas não hegemônicas e de resistência.

Referências:

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

IANNI, Octavio. Tendências do pensamento brasileiro. Tempo soc. São Paulo, v. 12, n. 2, p. 55-74, nov. 2000. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-20702000000200006&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em: 22 jan. 2019.

MAIA, João Marcelo Ehlert. A imaginação da terra: o pensamento brasileiro e a condição periférica. Tempo soc., São Paulo, v. 25, n. 2, p. 79-97, nov.  2013. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-20702013000200005&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em: 22 jan. 2019.

MAIA, João Marcelo. Pensamento brasileiro e teoria social: notas para uma agenda de pesquisa. Rev. bras. Ci. Soc. São Paulo, v. 24, n. 71, p. 155-168, out. 2009. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092009000300011&lng=en&nrm=iso&gt;. Acesso em: 22 jan. 2019.

SEGATO, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños, 2016.

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