Gênero, Mulheres, Pensamento social

Berta Ribeiro: o legado indígena no cotidiano brasileiro

Em um momento em que o capitalismo dependente (1) e extrativista mostra sua real face, destruindo ecossistemas e matando seres humanos e não humanos, é imprescindível rememorar as contribuições de Berta Ribeiro para pensar o Brasil. Em toda a sua trajetória acadêmica e política, esteve preocupada com o saber ecológico dos povos originários, sobretudo no que se refere ao legado indígena presente no cotidiano brasileiro, porém sua obra não se limita apenas a esses tópicos.

Berta Ribeiro (1924-1997), de origem romena, foi antropóloga, etnóloga, professora, pesquisadora e militante da causa indígena e socialista no Brasil. Contribuiu para o entendimento da cultura material dos povos indígenas brasileiros (saberes, técnicas e práticas), se destaca, entre as suas obras, O índio na cultura brasileira (1987). Não raro, Berta é facilmente lembrada às sombras de Darcy Ribeiro, com quem foi casada. A saber, tem participação central na produção de trabalhos importantes do antropólogo, contribuindo na organização de materiais, nos registros manuais e datilográficos das saídas de campo. Ressalta-se sua incansável luta contra a política indigenista, a injusta distribuição das terras no Brasil e o descaso dos indígenas e demais populações excluídas.

Berta Ribeiro entre os índios Kadiwéu em 1948.jpgBerta Ribeiro em uma saída de campo.  Data não catalogada. Fonte: Fundação Darcy Ribeiro.

No conjunto de sua obra, destacou os conhecimentos indígenas sobre a fauna e a flora, as técnicas agrícolas e artesanais, a culinária, a arquitetura popular, a medicina rústica, o folclore, a arte e o grafismo indígena. Esses aspectos da ação humana sobre a natureza também foram sistematizados em uma visão histórica e antropológica do Brasil indígena. Nessa perspectiva, Berta Ribeiro colaborou, através da teoria antropológica, para o pensamento social brasileiro.

Aqui se faz um parêntese. O campo do pensamento social brasileiro assim como, também, as modernas ciências sociais, baseia-se em autores homens clássicos. Mencionar, portanto, uma mulher e reconhecer suas contribuições originais para o Brasil, é pensar além de uma ciência e história fundamentadas em estruturas políticas em que a autoridade é exercida pelo homem através de uma abordagem unilateral.

Conhecedora profunda da cultura dos originários habitantes do Brasil, conviveu com eles, dividiu autoria de obras e não ficou só nos estudos; foi à luta em defesa deles (CALLADO, 2013). Ao destacar esses elementos e valores que enriquecem a nacionalidade, Berta teve uma preocupação política bem definida: fazer valer os direitos históricos dos indígenas que foram negados (RIBEIRO, 1987). Cada vez mais a cultura de massa e a indústria cultural ocultam outras manifestações culturais, entre elas, a cultura popular autêntica. Portanto, avaliar o rico arcabouço deixado pelos povos nativos é importante para a consciência e interpretação da realidade atual. Além disso, vale-se para uma possível mudança de paradigma e, também, garantia de direitos e liberdade desses povos. Nas palavras de Berta Ribeiro

Desde a expansão da Europa mercantil, no século XVI, os povos periféricos foram exterminados, dominados ou silenciados. Com isso perderam-se modelos alternativos de florescimentos das civilizações. É hora de os últimos serem os primeiros. Esta pode vir a ser a nova contribuição do índio à cultura brasileira. Isto é, na medida em que a consciência da exploração étnica despertar a consciência de classe, e, consequentemente, a conscientização política (Varesse 1981: 128). Só então poder-se-á institucionalizar a presença indígena na nacionalidade com gozo pleno de sua cidadania, mediada pela condição tribal. (RIBEIRO, 2013, p. 187)

Em tempos de crimes ambientais e trabalhistas, como os desastres tecnológicos de Mariana (MG) e Brumadinho (MG), é substancial pensar novas racionalidades para o paradigma ambiental dominante. O atual modelo de acumulação e exploração capitalista, bem como os mecanismos de saque e apropriação do território do extrativismo, destroem formas sociais não capitalistas e a reorganizam a serviço do capital. Isso impacta regiões inteiras, não apenas no aspecto físico, mas também cultural, econômico e social. Pensemos, portanto, na diversidade da nossa cultura e dos nossos povos. Afinal, como diz Viveiros de Castro (2014) “os índios podem nos ensinar a viver melhor em um mundo pior”.

(1) Por capitalismo dependente entende-se a relação de países da periferia capitalista (países latino americanos, por exemplo) em relação de subordinação aos grandes centros do capitalismo avançado (países do Norte global, por exemplo). Vânia Bambirra (2013), ao analisar as contradições do capitalismo dependente, decifrou que este sistema não pode resolvê-las. Deste modo, para se manter, precisa apelar para as formas mais extremas de repressão econômica, política, social e até para o fascismo.

 Referências:

BAMBIRRA, Vânia. O capitalismo dependente latino-americano. Florianópolis: Insular, 2013.

CALLADO, Ana Arruda. Apresentação. In: RIBEIRO, Berta G. O índio na cultura brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013.

EL PAÍS. Diálogos sobre o fim do mundo. 2014. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/brasil/2014/09/29/opinion/1412000283_365191.html&gt;. Acesso em: 29 jan. 2019.

RIBEIRO, Berta G. O índio na cultura brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Darcy Ribeiro, 2013.

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