Gênero, Mulheres, Pensamento social, Teoria da dependência, Vânia Bambirra

Vânia Bambirra: mulher, intelectual e militante

Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica
Que sempre precisará de ridículos tiranos? (Caetano Veloso, 1984)

No mesmo sentido de crítica ao pensamento e sistema dominante hegemonizador da Berta Ribeiro (autora abordada anteriormente em Berta Ribeiro: o legado indígena no cotidiano brasileiro), Vânia Bambirra (1940-2015) contribuiu na perspectiva da transformação social e da luta revolucionária na América Latina. Foi cientista social, intelectual, militante, professora e uma das criadoras da teoria marxista da dependência. Nasceu em 1940 em Belo Horizonte (MG). Filha de uma dona de casa e de um alfaiate militante do Partido Comunista, teve na figura do seu pai o primeiro referencial de luta e justiça social. Interessada na causa revolucionária, graduou-se em Sociologia e Administração Pública, pela UFMG.

Em 1963, foi aprovada no mestrado da UnB e concomitantemente como instrutora. Nesse ínterim, além da pesquisa de dissertação, ministrava aulas para a graduação e extensão. Nesse mesmo ano em questão, viajou pela primeira vez à Cuba, representando a Organização Revolucionária Marxista Política Operária (POLOP).

Esta viagem ratificou todo o meu entusiasmo revolucionário. Fiquei ainda mais convencida de que era importante, não só explicar a sociedade, mas, sobretudo, transformá-la (BAMBIRRA, 1991, p. 20).

Em decorrência da ditadura militar, exilou-se, em 1966, no Chile. Lá produziu grande parte de suas obras e artigos e onde adquiriu a dimensão de América Latina. Se afirmou como intelectual, professora, pesquisadora e cientista social.

Nesse contexto, um grupo de intelectuais formaram uma equipe de pesquisas sobre as relações de dependência na América Latina, dirigida por Theotônio dos Santos. Ao analisar as contradições do capitalismo dependente, Vânia decifrou que este sistema não pode resolvê-las. Deste modo, para se manter, precisa apelar para as formas mais extremas de repressão econômica, política, social e até para o fascismo. Sustenta que a alternativa a ele seria o socialismo.

A polêmica sempre foi meu forte, sempre gostei de demolir esquemas analíticos e argumentos […]. Em quase todos meus trabalhos, ela está presente (BAMBIRRA, 1991, p. 27).

Depois do golpe de Pinochet deslocou-se para o México. Seguiu pensando e escrevendo, tendo sempre o Brasil em pauta (PRADO, 2013). No México se dedicou integralmente à pesquisa e continuou a estudar os aspectos da transição socialista, neste caso, analisando os contextos de México e Cuba. Através de uma análise sistemática, observou as contribuições de Marx e Engels para a teoria do socialismo e, também, como Lenin participou para o enriquecimento e consolidação do tema.

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A volta do exílio, com Theotonio dos Santos e Herbert de Souza (Betinho). São Paulo, aeroporto de Congonhas, 15 de setembro de 1979. Fonte: Memória-arquivo Vânia Bambirra.

O que marca o pensamento de Vânia Bambirra é, sem dúvidas, a luta revolucionária. A constante crítica ao modo de produção capitalista e a produção de desigualdades decorrente desse sistema. Pensou a transformação da América Latina pela América Latina. Tal qual o trecho da música enunciada no início deste texto que direciona uma crítica sociológica à relação de dependência do nosso continente (composição e interpretação de Caetano Veloso). Vânia Bambirra, não somente pensou, mas teve uma incansável atuação prática e engajamento pela causa. Sua produção intelectual está estreitamente associada com as circunstâncias políticas.

O fato de ser filha de comunista perseguido; de haver vivido o impacto da Revolução Cubana no continente; de ter de deixar a UnB e, em seguida, me exilar, devido as consequências do golpe de 1964; de haver participado da experiência da Unidade Popular no Chile e, de ser obrigada a exilar-me de novo no Panamá e logo no México; de voltar para o Brasil, após a anistia de 1979, retornando a Minas Gerais, e fazer política local; de mudar para o Rio de Janeiro para colaborar com o novo governo; de retornar a Brasília, com a reintegração dos professores, no processo de abertura política, vem imprimindo à minha existência contornos sui-generis (BAMBIRRA, 1991, p. 94-95).

É interessante considerar ainda, no pensamento de Vânia Bambirra, a “capacidade de captar seu próprio momento histórico e enfrentar os temas fundamentais que a realidade concreta apresenta, buscando a compreensão e transformação desta mesma realidade” (PRADO, 2013, p. 15). Buscou no marxismo um recurso para entender o mundo. Na revolução socialista, constatou a saída para o capitalismo dependente e a construção de uma nova ordem social.

Em 2013, o Instituto de Estudos Latino-americano (IELA), da Universidade Federal de Santa Catarina, entrevistou a cientista social. Vânia falou sobre sua obra, na época recém traduzida para o português, O capitalismo dependente latino-americano. O material pode ser acessado aqui: Vânia Bambirra: intelectual e militante. Além desta iniciativa, pode-se mencionar o Memorial-Arquivo Vânia Bambirra. Trata-se de uma página que abriga boa parte da obra da Vânia Bambirra.

Seu pensamento ainda é vivo nos dias de hoje e suas contribuições reveladoras para compreender o momento presente. Além da produção no campo do pensamento social e político latino-americano, Vânia pensou a questão das mulheres trabalhadoras em relação ao modo de produção capitalista. Destaca-se, sobre esse tema, o livro A Emancipação da mulher e o artigo Liberación de la mujer y lucha de clases. Bambirra foi uma intelectual e militante que sempre pensou o Brasil e a América Latina de uma forma crítica, engajada, com vistas à transformação.

Referências

PRADO, Fernando Corrêa. Apresentação. In: BAMBIRRA, Vânia. O capitalismo dependente latino-americano. Florianópolis: Insular, 2013. p. 11-22.

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