Referências teórico-metodológicas

As referências teórico-metodológicas, aos poucos, estão sendo incluídas neste espaço.

O que entendemos por gênero, raça e mulheres? pensamento social? desenvolvimento e região?

Gênero e mulheres?

Gênero é o termo utilizado para designar as relações sociais entre os sexos, é um conjunto de relações e não um atributo individual; e envolve relações de poder. O uso do termo “gênero” pode incluir o sexo, mas não é determinado por ele nem pela sexualidade. Seu uso faz parte da tentativa de enfatizar a incapacidade das teorias existentes de explicar as desigualdades entre homens e mulheres (BUTLER, 2003; SCOTT, 1995).

El género es, en este análisis, la forma o configuración histórica elemental de todo poder en la especie y, por lo tanto, de toda violencia, ya que todo poder es resultado de una expropiación inevitablemente violenta. Desmontar esa estructura será, por eso mismo, la condición de posibilidad de todo y cualquier proceso capaz de reorientar la historia en el sentido demandado por una ética de la insatisfacción (Segato 2006).” (SEGATO, 2016, p. 19).

Os estudos de gênero se desenvolveram em algumas direções. A primeira, diz respeito a forma como a mulher assume um modo de estar no mundo. A segunda é a do gênero como forma de hierarquização, de divisão sexual do trabalho. “O gênero opera como uma estrutura de poder, da mesma forma que a classe, a raça ou a cultura. (…) O conceito de gênero identifica os espaços materiais e simbólicos nos quais as mulheres têm uma posição de desvantagem social” (BEDÍA, 2014, p. 10). A desigualdade na relação entre desenvolvimento e gênero é explicada pelo processo de desenvolvimento, bem como, por fatores sociais (SEEMA, 2014).

Temas relacionados ao desenvolvimento incluem: a desigualdade de gênero, o trabalho desproporcional das mulheres e ainda a ausência das mulheres nas políticas de desenvolvimento e na política. As mulheres de diferentes classes sociais, raças, culturas, religiões, regiões sofrem várias formas de opressão. Na hierarquia da exploração colonialista as mulheres são as que mais sofrem. Dentro de suas próprias comunidades precisam lutar pelas suas comunidades, mas enfrentam a cegueira das práticas culturais patriarcais em suas próprias comunidades (ANZALDUA, 2004; PEET; HARTWICK, 2015; SEGATO, 2012).

Torna-se necessário problematizar as categorias de gênero que sustentam as hierarquias e a heterossexualidade. A tarefa consiste em centrar e descentrar as definições de falocentrismo e heterossexualidade compulsória existentes em nossa sociedade. O reconhecimento da posição da mulher no desenvolvimento está intimamente ligado com a posição da mulher no sistema global de produção (BUTLER, 2003; PEET; HARTWICK, 2015).

O capitalismo utiliza as relações de gênero para produzir um exército de reserva, enquanto elas realizam trabalho não pago em suas casas como forma de manter as corporações (PEET; HARTWICK, 2015). “Ao invés de um gesto linguístico auto limitativo que garanta a alteridade ou a diferença das mulheres, o falocentrismo oferece um nome para eclipsar o feminino e tomar o seu lugar.” (BUTLER, 2003, p. 33).
Os estudos de gênero têm a possibilidade de transformar os paradigmas disciplinares. “As pesquisadoras feministas assinalaram desde o início que o estudo das mulheres não acrescentaria somente novos temas, mas que iria igualmente impor um reexame crítico das premissas e dos critérios do trabalho científico existente.” (SCOTT, 1995, p. 73).

Os modelos teóricos que usamos servem e não servem às mulheres e às relações de gênero. Precisamos considerar que as epistemologias, as ciências e a compreensão de gênero estão espacialmente e historicamente localizadas.

“Desse ponto de vista, cada epistemologia alternativa – feminista, terceiro mundista, homossexual, operária – indica as condições históricas que produzem as oposições conceituais a serem superadas, mas não gera conceitos universais nem objetivos políticos. Como o gênero é também uma classe e uma categoria racial em culturas estratificadas segundo classe, raça e também gênero, a experiência isolada de uma mulher não pode servir de base para concepções e políticas que nos emanciparão a todas da hierarquia de gênero.” (HARDING, 1993, p. 23).

É por aí que caminhamos. Utilizando as categorias de gênero e de mulheres como categorias abertas e não universais.

Raça

A ideia de raça não existia antes da América. Diferenciou conquistadores de conquistados e “…desde muito cedo foi construída como referência a supostas estruturas biológicas diferenciais entre esses grupos.” (QUIJANO, 2005, p. 228).

A posterior constituição da Europa como nova identidade depois da América e a expansão do colonialismo europeu ao resto do mundo conduziram a elaboração da perspectiva eurocêntrica do conhecimento e com a elaboração teórica da ideia de raça como naturalização dessas relações coloniais de dominação entre europeus e não europeus. (QUIJANO, 2005, p. 229).

A raça não existe como acontecimento natural, físico, antropológico ou genético. Também não é uma ficção útil que tem função de desviar a atenção de conflitos considerados mais verdadeiros: a luta de classes e a luta entre sexos, por exemplo. Em sua ávida necessidade de mitos destinados a instaurar sua potência, o hemisfério ocidental se considerava o centro do globo. “Esto es lo que hizo de la empresa colonial una obra fundamentalmente ‘civilizadora’ y ‘humanitaria’ cuya violência, que era su corolário, naturalmente no podia ser otra cosa más que violencia moral.” (MBEMBE, 2016, p. 42).

O negro não existe em si mesmo. É produzido constantemente. Produzir o negro é produzir um laço social de submissão e um corpo de extração, um corpo completamente exposto a vontade de um amo que se empenha em obter dele a máxima rentabilidade. Desde o começo do século XVIII o negro e a raça constituíram o subsolo do projeto moderno de conhecimento e de governo. A raça foi ao longo de alguns séculos a origem de várias catástrofes (MBEMBE, 2016).

Se negro e raça foram figuras centrais – negadas – do discurso euroamericano como supor a extinção do racismo? Raça e negro nunca constituíram noções fixas. Sempre fizeram parte de um encadeamento de coisas em si mesmas inacabadas. O negro foi inventado para significar exclusão, embrutecimento e degradação.  “este substantivo marcó una serie de experiencias históricas de personas atrapadas en las redes de la dominación de raza, de ver funcionar sus cuerpos y su pensamento desde fuera; de haber sido transformadas en espectadoras de algo que era y no era su propia existencia.” (MBEMBE, 2016, p. 33).

A “colonización: cabeza de puente de la barbarie en una civilización, de la cual puede llegar en cualquier momento la pura y simple negación de la civilización.” (CESAIRE, 2006, p. 17). O que Cesaire parece estar argumentando é que o colonizador tem mais a perder que o colonizado, já que este, por ser oprimido, é naturalmente alguém que protesta e luta. O colonizador se vê rebaixado por sua própria renúncia a civilização e é mais difícil que perceba a raiz de sua ruína (WALLERSTEIN, 2006). A distância entre colonização e civilização é infinita. “la distancia de la colonización a la civilización es infinita, que de todas las expediciones coloniales acumuladas, de todos los estatutos coloniales elaborados, de todas las circulares ministeriales expedidas, no se podría rescatar un solo valor humano. (CESAIRE, 2006, p. 14).

O capitalismo encontrou terreno fértil na estrutura de gênero e raça para se desenvolver. “El capitalismo es siempre negación de una parte de la humanidad. (…) La raza es la negación de la idea de lo común.” (GAGO; OBARRIO, 2016, p. 19). Mbembe encara o negro como excedente que vai fundar o capitalismo moderno (GAGO; OBARRIO, 2016). O que acontece é a universalização de um modo de vida que implica sua auto-anulação e a anulação do outro como condição permanente de sua reprodução.

Pensamento social?

O pensamento social é um processo de reflexão da sociedade sobre ela mesma. É um pensamento em movimento, marcado histórica e geograficamente. Nossa imaginação é fertilizada por ele (MAIA, 2010).

O estudo do pensamento social pode incluir pesquisas sobre as tradições intelectuais, culturais, sociais e políticas. Hoje se preocupa com questões contemporâneas e, além dos grandes temas relacionados a formação do Estado-Nação, inclui questões ligadas a cidadania, cultura política, modernidade e mudança social. Abre espaço também para diferentes modalidades de produtores e de produção intelectual e artística e cultural (SCHWARCZ; BOTELHO, 2011). Soma-se aí:

“O interesse por novas clivagens como as de gênero, idade, religião e raça e suas inflexões no pensamento social e na produção cultural.” (SCHWARCZ; BOTELHO, 2011, p. 12).

Se antes a preocupação era mais na constituição social das ideias, hoje interessa a reflexão e ação de grupos sociais na construção do próprio social (SCHWARCZ; BOTELHO, 2011). Aqui entra nossa preocupação com o pensamento social das mulheres.

A intenção não é de encontrar uma essência singular do pensamento social em relação ao pensamento europeu ou estadunidense, “mas sim de evidenciar as geografias desse violento encontro, cujos efeitos se disseminaram pelo continente.” (MAIA, 2010, p. 71). Mostrar a complexidade geográfica e intelectual da produção feminina.

Desenvolvimento e região?

O discurso do desenvolvimento, disseminado a partir da década de 1940, inculcou a ideia de que o modo de produção industrial e a acumulação de bens materiais são sinônimo de sucesso e qualidade de vida. O que se pensou e se fez em nome do desenvolvimento foi incluir territórios não capitalistas nos circuitos de acumulação de capital, transformar seres humanos em meros consumidores, camponeses em trabalhadores assalariados, bens naturais em commodities, propriedade coletiva em privada (LANG, 2016).

Definitivamente não é este o desenvolvimento que queremos para nossas regiões. De que concepção de desenvolvimento partimos? Por que? Para quê? Para quem? Considerando que os conceitos de desenvolvimento e região passam a significar o conhecimento e as experiências históricas que adotamos como referência. Os conceitos nos trazem muitos limites, mas sobretudo precisam nos trazer perguntas, textos e contextos (BUTZKE; THEIS; MANTOVANELLI JÚNIOR, 2018).

Convergimos também com as questões formuladas por Arlene Renk: “como se concebe a região? No que consiste essa ficção bem fundamentada chamada região? Quem faz a região? Como os grupos sociais ocupam as posições diferenciadas no espaço social? De que estratégias se valem?” (RENK, 2004, p. 7).

Os conceitos, região e desenvolvimento, trazem significados e experiências de outros espaços e tempos que se impõem aos nossos espaços e tempos. Todavia, se os conceitos unificam em si um conjunto de significados e contém experiências históricas, podemos recuperar os significados e as experiências negados (BUTZKE; THEIS; MANTOVANELLI JÚNIOR, 2018). A ideia é romper com a reflexão e prática voltadas a experiências de desenvolvimentos alternativos em regiões limitadas por narrativas hegemônicas situadas no espaço e no tempo. Questionar os conceitos é um primeiro passo na reflexão e prática de alternativas de desenvolvimento e de alternativas a ficção chamada região.

Síntese do modelo de análise

Modelo de análise

Figura 1: Modelo de análise: conceitos e variáveis
Fonte: Elaboração própria.

ORGANIZAÇÃO DA PÁGINA E DO PROJETO COLABORATIVO

O projeto colaborativo e a página estão organizados de acordo com o esquema abaixo:

Mulheres no DR

Figura 2: Esquema do projeto colaborativo

Fonte: Elaborado por Luciana Butzke.

Nem todas as mulheres abordam o tema de desenvolvimento regional em suas reflexões e práticas, nem todas as mulheres pensam as mulheres nesse processo. A contribuição das mulheres que pensam o desenvolvimento regional na América Latina, Brasil e Santa Catarina será apresentada nas páginas referentes aos temas 1 e 2, conforme indicado na figura.

Nos temas relacionados ao item 3 apresentaremos as mulheres que pensam as mulheres. Para auxiliar nesta análise utilizaremos as Formas da Teoria Feminista de Desenvolvimento desenvolvida por Peet e Hartwick (2015).

Esquema Peet Hartwick 2

Figura 3: Formas da Teoria Feminista de Desenvolvimento

Fonte: Traduzido e adaptado por Luciana Butzke a partir de Peet e Hartwick (2015).

REFERÊNCIAS

ANZALDUA, Gloria. Los movimentos de rebeldia y las culturas que traicionan. In: HOOKS, Bell, et al. Otras inapropiables. Feminismo desde las fronteras. Madrid: Traficantes de Sueños, 2004, p. 71-80.

BUTLER, Judith. Problemas de gênero. Feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.

BUTZKE, Luciana; THEIS, Ivo Marcos; MANTOVANELLI JÚNIOR; OKLINGER. Existe alguma região para desenvolver? Um questionamento desde o pensamento social latino-americano. Revista Brasileira de Gestão e Desenvolvimento Regional, v. 14, n. 2, 2018, p. 91-106. Disponível em: http://www.rbgdr.net/revista/index.php/rbgdr/article/view/3586/660. Acesso em: 24 mar. 2018.

CESAIRE, Aime. Discurso sobre el colonialismo. Madrid: Ediciones Akal, 2006.

GAGO, Verónica; OBARRIO, Juan. Prólogo. In: MBEMBE, Achille. Crítica de la razón negra. Ensayo sobre el racismo contemporáneo. Barcelona: Nuevos Emprendimentos Editoriales, 2016.

HARDING, Sandra. A instabilidade das categorias analíticas na teoria feminista. Estudos feministas, n. 1, 1993, p. 7-31.

LANG, Miriam. Introdução: alternativas ao desenvolvimento. In: DILGER, Gerhard; LANG; Miriam; PEREIRA FILHO, Jorge (Orgs.). Decolonizar o imaginário. Debates sobre pós-extrativismo e alternativas ao desenvolvimento. São Paulo: Fundação Rosa Luxemburgo, 2016, p. 25-44.

MAIA, João Marcelo Ehlert. O pensamento social brasileiro e a imaginação pós-colonial. Revista Estudos Políticos, nº 0, 2010/1, p. 64-78.

MBEMBE, Achille. Crítica de la razón negra. Ensayo sobre el racismo contemporáneo. Barcelona: Nuevos Emprendimentos Editoriales, 2016.

PEET, Richard; HARTWICK, Elaine. Theories of development. Contentions, Arguments, Alternatives. 3ª ed. New York: The Guilford Press, 2015.

QUIJANO, Aníbal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina. In: LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber. Eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. 1ª ed. Buenos Aires: CLACSO, 2005, p. 227-278.

RENK, Arlene. Narrativas da diferença. Chapecó: Argos, 2004.

SCOTT, Joan. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade, v. 15, n. 2, jul./dez. 1995, p. 71-98.

SCHWARCZ, Lilia Moritz; BOTELHO, André. Pensamento social brasileiro, um campo vasto ganhando forma. Lua Nova, São Paulo, 82: 11-16, 2011.

SEEMA, Jayachandran. The roots of gender inequality in developing countries. Annual Review of Economics, 2014.

SEGATO, Rita Laura. La guerra contra las mujeres. Madrid: Traficantes de Sueños, 2016.

SEGATO, Rita Laura. Gênero e colonialidade. Em busca de chaves de leitura e de um vocabulário estratégio descolonial. E-Cadernos CES, 18, 2012, p. 106-131.

WALLERSTEIN, 2006. Introducción. Aimé Cesaire: colonialismo, comunismo y negritud. In: CESAIRE, Aime. Discurso sobre el colonialismo. Madrid: Ediciones Akal, 2006, p. 7-12.

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