A revolução das mulheres: desafios do passado, lutas do presente

Em sua poesia, Perguntas a um operário que lê, Bertold Brecht questiona: “Quem construiu Tebas, a das sete portas? Nos livros vem o nome dos reis. (…) Em cada página uma vitória. Quem cozinhava os festins? Em cada década um grande homem. Quem pagava as despesas?”. Os homens aparecem nas histórias: o operário, os reis, um grande homem. Por que as mulheres não aparecem?
2017 marca os cem anos da Revolução Russa. Que lugar tiveram as mulheres nas tantas páginas escritas sobre esse processo? Quais eram suas reivindicações? O que conquistaram? O que não conquistaram há cem anos atrás e permanece como luta no presente?
No dia 23 de fevereiro de 1917 (do calendário russo; no nosso calendário, 8 de março), mais tarde transformado em Dia Internacional das Mulheres, ocorreu uma greve de operárias têxteis em Petrogrado. Na ocasião, mais de noventa mil mulheres protestaram contra o czarismo e contra a miséria. Elas pediam o retorno dos maridos das trincheiras, já que a Rússia lutava na Primeira Guerra Mundial. A Rússia Czarista da época era marcada pela fome e pela miséria das maiorias.
A participação das mulheres no processo revolucionário foi motivada pela fome, pela injustiça e, sobretudo, pela esperança de contribuir na construção de um novo mundo. Mundo este que traria a superação do capitalismo e, portanto, das desigualdades de classe e gênero. No desafio da construção de uma sociedade comunista, era preciso encarar uma transformação nos modos de vida, na organização familiar e nas relações humanas.
Urgia libertar as mulheres da “escravidão do lar”. Para tanto, era preciso que elas conquistassem sua independência econômica. Para que isso se tornasse realidade ocorreu, em grande medida, a socialização do trabalho doméstico por meio de lavanderias, creches e restaurantes públicos. A libertação das mulheres foi uma “revolução dentro da revolução”: o trabalho doméstico ganhou a esfera pública.
Na organização familiar, a união livre substituiria o casamento. Por união livre entendia-se a união de pessoas autônomas, libertadas da dependência econômica e de regras impostas pelo Estado e pela tradição. Nas relações humanas, conquistar-se-ia a igualdade de salário e de jornada de trabalho. Mas, se no início, a luta das mulheres teve avanços, posteriormente, ela também teria retrocessos.
No período stalinista, de 1930 a 1940, a seção feminina do partido foi dissolvida, a homossexualidade e o aborto (que havia sido legalizado já no ano de 1920) passaram a ser penalizados, a educação voltou a dividir homens e mulheres, o divórcio passou a ser dificultado (ele era permitido desde 1917).
Os problemas da época, longe de superados, seja na Rússia revolucionada, seja no Ocidente capitalista, continuam marcando as lutas do presente. Muitas mulheres trabalhadoras se consideram emancipadas. Trabalham fora, mas transferem o trabalho doméstico para outras mulheres, que têm menos escolhas. Não há emancipação para quem trabalha fora, assim como não há para quem trabalha na esfera doméstica. As estruturas patriarcais da família e do trabalho mantém-se intactas.
Muitos homens e mulheres acreditam que os assuntos relacionados à mulher dividem o movimento dos trabalhadores, que deveria orientar-se prioritariamente contra a exploração dos trabalhadores, sem distinções de gênero. Contudo, desconsiderar as desigualdades existentes entre homens e mulheres parece pouco razoável. Novamente: as estruturas patriarcais da família e do trabalho permanecem intactas.
A construção de uma nova sociedade requer a retomada da história e a atualização do passado. Que as pessoas se unam e se mantenham juntas não apenas porque precisam reunir seus salários, sobreviver e reproduzir a força de trabalho requerida pelo capital. Numa sociedade livre da desigualdade, da exploração e da dependência (aqui, penso na dependência financeira das mulheres), as pessoas viveriam juntas pelo simples prazer de conviver umas com as outras. Nesta sociedade que ainda não é o que o que está destinada a ser, não faria sentido que as estruturas patriarcais da família e do trabalho permanecessem intactas.

Para saber mais:
GOLDMAN, Wendy. Mulher, Estado e Revolução. São Paulo: Boitempo, 2014.
KOLONTAI, Alexandra; ZETKIN, Clara. A revolução sexual e a Revolução Socialista. Estudos vermelhos, São João del-Rei, 2009.
SCHNEIDER, Graziela (Org.). A revolução das mulheres: emancipação feminina na Rússia soviética. São Paulo: Boitempo, 2017.

Luciana Butzke

Outubro de 2017

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