Ciência e sociologia: substantivos femininos

Antes de ser socióloga, nasci mulher. Desde muito cedo, tive referências femininas fortes: Marilda, minha mãe; minha vó, Donatilha; minha oma, Leonida; minhas irmãs Viviana e Susana; minhas tias mais próximas, Lizete e Dalila. Nenhuma foi ou é “bela recatada do lar”, todas tiveram ou têm de lidar com o machismo que nos habita e que constitui a sociedade em que vivemos.
É fato que nossa sociedade não está dividida apenas em homens dominadores e mulheres dominadas. Há homens que dominam homens, mulheres que dominam mulheres e mulheres que dominam homens. Mas este fato não deve obscurecer o machismo ainda existente, no qual as diferenças continuam a ser de gênero/sexo, mas passam a ser também aquelas de classe social e étnico-raciais. A dominação e a exploração assumem formas cada vez mais complexas, mas o machismo continua presente de forma mais ou menos explícita.
Adentrando o espaço e o tempo da ciência e da sociologia, as referências femininas são escassas. Quantas cientistas e quantas sociólogas fazem parte dessa história? Por que não as conhecemos ou conhecemos tão pouco delas? Elas trouxeram alguma contribuição original? Ou nenhuma desenvolveu ideias e práticas representativas comparadas as dos homens? Onde estariam elas enquanto eles refletiam sobre os problemas sociais?
Os substantivos “ciência” e “sociologia”, mesmo femininos, trazem em si muito pouco das mulheres. Como a mulher olha a ciência e a sociologia? Existe nesse olhar algo diferente do olhar do homem? Se a sociologia tem vários pais (Comte, Marx, Durkheim e Weber) por que ela não tem mãe?
Comte (1798-1857), considerado um dos pais da sociologia, foi antecedido por Harriet Martineau (1802-1876) em duas décadas. Ela escreveu Sociedade na América e Como observar moralidades e maneiras e insistiu que o estudo da sociedade deveria contemplar o entendimento da vida da mulher. Marianne Weber (1870-1954), esposa de Max, foi socióloga e ativista feminista, escrevendo sobre as mudanças da sociedade e a posição da mulher. Na Rússia, Alexandra Kollontai (1872-1952) foi uma importante intelectual bolchevique que lutou para que a situação da mulher fosse considerada. Ellen Key (1849-1926), teórica social sueca, advogou em favor da mulher e de sua igualdade, do direito ao voto e à educação infantil. Essas mulheres ou não aparecem ou tem pouco destaque nos manuais de sociologia!
No Brasil, a situação não é diferente! Só em 2004 foi instituído um grupo de trabalho interministerial para tratar da questão de gênero nas universidades. Em 2005 foi criado o Programa Mulher e Ciência, e um dos projetos foi o de escrever a história das mulheres brasileiras cientistas. No site do Projeto Pioneiras da ciência (http://cnpq.br/pioneiras-da-ciencia1/) mais de 70 cientistas brasileiras tiveram suas histórias contadas. Dessas, quatro são sociólogas: Virgínia Leone Bicudo (1910-2003), Maria Isaura Pereira de Queiroz (1918), Heleieth Saffioti (1934-2010) e Dulce Whitaker (1934). Se perguntarmos para professoras, professores e estudantes de ciências sociais talvez poucas/os as conheçam. E por que deveriam conhecer?
Me torno mulher e socióloga a cada dia. Como tal, posso olhar para o passado e não preciso aceita-lo como foi (Aí me valho dos ensinamentos de Walter Benjamin). Me incita reviver histórias não reconhecidas ou esquecidas! Me torno mais socióloga e mulher quando desconfio que só os homens tiveram algo a dizer. Não tenho a intenção de queimar os homens na fogueira, nem desprezar suas contribuições. Não se trata de substituir os homens pelas mulheres, mas de “inventar novas almas”, como diria Aimé Cesaire.
Muitas e muitos falam que a sociedade mudou, que o machismo tem diminuído. Concordo em parte, mas acredito que temos grandes desafios pela frente. Na ciência e na sociologia precisamos recuperar o passado que não passou e continua presente no silêncio das mulheres. Contar a história das sociólogas do passado é ressignificar a nossa própria história!
Sou socióloga e me torno ser humana a cada dia. Como tal, posso olhar para o passado e não preciso aceita-lo como foi. Reviver e viver a história das mulheres que fizeram e fazem parte da minha vida: Marilda, Donatilha, Leonida, Viviana, Susana, Lizete e Dalila. Reviver e viver a história das mulheres que fizeram e fazem parte da sociologia. Todas (as mulheres da minha vida e as sociólogas) viveram e vivem o machismo e o enfrentaram de alguma forma, em suas cabeças, dentro da própria casa e nos espaços públicos. Que o esforço de “inventar outras almas” faça florescer as potencialidades de cada ser humano (homem ou mulher) e que, na superação do machismo, resida também a superação de todo e qualquer tipo de desigualdade.

Luciana Butzke

Março de 2017

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