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A Alemanha não é aqui!

por Ivo Marcos Theis

Blumenau não é “um pedacinho da Alemanha no Brasil”. Aliás, nunca foi e nem poderia ter sido. Quem vende o slogan mente. Não perguntem o que motiva a mentira. Mas, agora a mentira, finalmente, ficou mais evidente. Não por que os mentirosos admitiram seu ludíbrio. Mas, por que os alemães (enfatize-se: os da Alemanha), finalmente, escancararam a diferença.
Foi a COVID-19 que deu a oportunidade de mostrar que os alemães não têm nadinha a ver com essa triste aldeia de falsos bávaros. Vejamos os dados mais recentes para comprová-lo: essa gripezinha que batizaram de COVID-19 afeta, neste domingo de Páscoa, 210 nações e territórios em torno do planeta. E já infectou 1,846 milhão de pessoas. E já matou 113,9 mil.
E a Alemanha? Aí se encontram 127,4 mil dos infectados, o que coloca aquele país como o quinto neste perverso ranking. Mas, aí também se encontram 2.996 mortos pelo novo coronavírus, o que o coloca como o nono nesta cruel lista. Curiosamente, o número de infectados ainda cresce muito – mais de dois mil casos apenas ontem; mas, o número de novas vítimas não é dos mais altos. O Brasil, em contrapartida, tem, neste domingo de Páscoa, 22,1 mil pessoas infectadas – e soma 1.223 mortos. Curiosamente, o número de infectados parece crescer pouco; aliás, assim como o número de mortos. Então, estamos bem, não estamos? Vejamos se é possível extrair alguma inferência relevante ao compararmos os casos.
Em primeiro lugar, é realmente surpreendente que a Alemanha tenha chegado a 0,1534% de infectados em relação à sua população – de 83 milhões de habitantes! O Brasil, em contrapartida, tem reduzidíssimos 0,0105% de infectados de sua população – de 209,3 milhões de habitantes. Como pode isso? Meus amigos alemães me informaram (me mandando não só seus preocupados recados, mas também preciosos links de notícias de fontes que reconheço serem fidedignas) que a Alemanha começou cedo com duas medidas: testagem em massa e isolamento social. Mentira? Sinceramente, duvido muito menos desses fatos, por serem facilmente comprováveis, que do incansavelmente trombeteado slogan de que Blumenau é “um pedacinho da Alemanha no Brasil”. Ou seja: se no Brasil se fizesse testagem em massa, possivelmente, os números nos seriam muitíssimo menos favoráveis. Quanto a isolamento social, olhando em volta, o que se poderia dizer de tranquilizador?
Em segundo lugar, a testagem em massa procedida na Alemanha também explica um coeficiente aparentemente surpreendente: 2,3% dos infectados pelo novo coronavírus chegam a óbito naquele país. Em contrapartida, no Brasil, essa taxa sobe para 5,5%.
Em terceiro lugar, deve ser lembrado que, aos jornalistas, pelo que se extrai tanto da mídia convencional/corporativa quanto da mídia alternativa (abstenho-me de comentar o que vai pelas ditas “mídias sociais”) têm incomodado a suspeita, até o presente não devidamente dirimida, de que o número de infectados e vitimados pelo novo coronavírus, estaria escandalosamente subnotificado no Brasil – e em Santa Catarina e, logo, também, em Blumenau. Imaginem se na Alemanha houvesse a simples desconfiança de subnotificação num caso tão grave e sério como este de que se trata aqui!
Em quarto lugar, partindo desses dados e doutros mais, cientistas ligados às universidades públicas de Santa Catarina, em estudo cuidadoso, acrescentam ainda uma inferência: observada a evolução de vitimados pela gripezinha batizada de COVID-19, a taxa média de óbitos tem sido de 0,7%. Aplicada a taxa média ao Brasil – enfatizam os responsáveis pelo estudo referido – o número pode chegar a 1,4 milhão de vítimas. Aplicada a Santa Catarina, o número pode chegar a mais de 50 mil vítimas. No entanto, para “ficarmos dentro da média”, teriam que ser – na verdade, já ter sido – tomadas providências como testagem em massa e isolamento social.
Os alemães (cabe lembrar: os da Alemanha), finalmente, escancararam a diferença para com essa insignificante e triste aldeia de falsos bávaros. A notícia-bomba – repercutida tanto pela mídia convencional/corporativa quanto logo também pela mídia alternativa – é que o Embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel recomendou, na sexta-feira 10 de abril, que os alemães que se encontram em solo brasileiro regressassem o mais rápido possível para casa. Em contrapartida, os representantes mais autênticos da mais falsa germanidade blumenauense, em consonância com seus interesses inconfessáveis, vêm diariamente “convocando” os seus “colaboradores” para regressarem o mais rápido possível… Aos seus locais de trabalho – mesmo quando até os (nem sempre zelosos) guardiães da lei se enternecem pelos cada vez mais graves dados com que a realidade nos vem confrontando, a cada dia, de fato, a cada hora que passa.
Uma ilustração eloquente de como esses interesses já nem podem mais ser contidos me foi oferecida nos últimos dias de março, quando entrou em meu whatsapp uma mensagem chamando para um “buzinaço”, programado para as 10 horas da segunda-feira, dia 30, em frente à prefeitura. Ninguém o assinava, mas como era “pelo fim do decreto de calamidade
pública, pela sobrevivência do comércio e manutenção de empregos”, pude imaginar sua origem. O tal “buzinaço” aconteceu – desfile impecável de marcas das mais caras disponíveis no mercado, carros novos em folha e limpinhos de dar inveja – como acabaria sendo informado, tanto pela mídia convencional/corporativa quanto pela mídia alternativa. Mas, na referida mensagem viria, com a inocultável desfaçatez de seus promotores, a singela advertência: “tomem precauções e não saiam dos carros”.
Assim, ao contrário do que se passa na Alemanha, estamos, em Blumenau (como, obviamente, também em Santa Catarina e no Brasil), os “sem-negócio”, os “sem-carros novos e limpinhos”, desamparados por mentiras, por notícias falsas, por subnotificações, por um sistema de saúde que vem sendo deliberadamente sucateado, pelo desprezo dos representantes mais autênticos da mais falsa germanidade blumenauense e dos representantes mais genuínos de qualquer falsa verdade que nos tem sido contada nesses tempos sombrios.
É o caso de resignar-se? Definitivamente, não. A ocasião, aliás, é propícia para que continuemos afirmando a verdade, a justiça, a bondade, o comedimento e a solidariedade. Sim, é fato que assim podemos vir a ferir os interesses dos promotores dos “buzinaços” e mui dignos representantes de todas as falsas verdades que nos têm sido contadas. E, sim, também é fato que quem mais cutucou a onça com vara curta acabou se dando mal: “Então começaram a cuspir-lhe no rosto e a dar-lhe bofetadas, e outros a ferir-lhe o rosto” (Mt 26, 67).
A celebração muito cristã da Ressurreição da vida não combina com os apelos em favor do rápido regresso dos “colaboradores” aos seus locais de trabalho. Aliás, a festa da Ressurreição não combina com esse trabalho alienante e mal pago que tem enriquecido muito poucos e jogado no desamparo milhares de homens e mulheres em Blumenau, milhões em Santa Catarina e no Brasil.
A Alemanha, definitivamente, não é aqui. Entretanto, malgrado todo o imenso risco que implica, a COVID-19 também oferece, de bandeja, uma oportunidade de ouro para os habitantes desta triste aldeia de falsos bávaros reagirem aos que se divertem cuspindo, bofeteando e ferindo os “sem-negócio”, os desamparados, os “colaboradores”. Invocar o direito à vida e exigir o isolamento social são medidas que, talvez, não apenas propiciem a sobrevivência em relação ao novo coronavírus, mas também escancarem um pouco mais as falsas verdades que nos têm sido contadas.

Da aldeia dos falsos bávaros, no domingo de Páscoa, 12 de abril de 2020

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