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Mulheres que pensam o Equador na Antologia CLACSO de 2018

Este texto faz parte do projeto: Mulheres que pensam o desenvolvimento na América Latina:  Contribuições presentes nas Antologias do Pensamento Social Latino-Americano e Caribenho publicadas pelo Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais no período de 2015 a 2017. O objetivo foi o de mapear as contribuições das mulheres ao pensamento social regional latino-americano e à teoria do desenvolvimento regional presente na Antologia do pensamento crítico equatoriano contemporâneo publicada pelo CLACSO em 2018 (HERRERA, 2018). O projeto contemplava o período de 2015 a 2017, mas decidimos incluir também as antologias que foram lançadas depois de 2017.

Na sequência, caracterizamos as autoras e seus temas, analisamos os artigos que contemplam a discussão sobre gênero, pensamento social, desenvolvimento e região. De 20 artigos publicados na Antologia do pensamento crítico equatoriano contemporâneo 13 são escritos por homens e sete artigos são escritos por mulheres. São elas: Cristina Burneo Salazar, Ana María Goetschel, Kattya Hernández Basante, Amparo Menéndez-Carrión, Blanca Muratorio, Mercedes Prieto Noguera e Catherine Walsh (Figura 1).

1 Cristina Burneo Salazar

2 Ana María Goetschel

3 Kattya Hernández Basante

4 Amparo Menéndez-Carrión

5 Blanca Muratorio

6 Mercedes Prieto Noguera

7 Catherine Walsh

Dentre essas autoras três são antropólogas, uma formada em Letras, outra História, Ciência Política e Educação (Quadro 1).

Quadro 1 – Autoras da Antologia do CLACSO Equador e formação

NomeFormação Graduação
Cristina Burneo SalazarLetras
Ana María GoetschelHistória
Kattya Hernández BasanteAntropologia
Amparo Menéndez-CarriónCiência Política
Blanca MuratorioAntropologia
Mercedes Prieto NogueraAntropologia
Catherine WalshEducação

Fonte: Elaboração própria baseada em Herrera (2018).

A maioria dos textos faz uma reflexão sobre o século XX. Temos um artigo da década de 1980, um da década de 1990 e cinco da primeira década de 2000 (Quadro 2). Para a editora da Antologia, esta “reúne textos cuyo denominador común ha sido tener un ojo inquisidor frente a la dominación y las desigualdades sociales en sus diversas manifestaciones.” (HERRERA, 2018, p. 14).

Quadro 2 – Antologia do CLACSO Equador, autoras artigos e ano de publicação

AutoraTítulo do artigoAno de publicação
Cristina Burneo SalazarCorpo roto2006
Ana María GoetschelOrigens do feminismo no Equador2006
Kattya Hernández BasanteRessignificação e representação que fazem as mulheres afroequatorianas sobre seus próprios corpos2010
Amparo Menéndez-CarriónImportância do clientelismo político como paradigma para interpretar a natureza das preferências eleitorais dos moradores de bairros1986
Blanca MuratorioDiscursos e silêncios sobre o Índio na consciência nacional1994
Mercedes Prieto NogueraO liberalismo do temor e os índios2004
Catherine Walsh“Raça”, mestiçagem e poder: horizontes coloniais passados e presentes2010

Fonte: Elaboração própria baseada em Herrera (2018).

Em relação aos temas selecionados (gênero, pensamento social e desenvolvimento regional) sintetizamos na sequência a contribuição das autoras:

Gênero

O texto de Goetschel (2018) fala da origem do feminismo na primeira metade do século XX e sobre o papel das mulheres na construção da nação. A indicação principal é a de que o feminismo latino-americano não é original. É, em grande medida, influenciado pelo debate estadunidense que chega através da Sexta Conferência Internacional dos Estados Americanos reunida em La Habana no ano de 1928. Entretanto, as mulheres latino-americanas em sua caminhada, vão construindo sua própria agenda.

O esforço que se faz por uma parte das feministas é colocar em dúvida os constructos sociais de gênero definidos exclusivamente pelos valores da sociedade branca-mestiça que visa exclusivamente reproduzir uma ordem social imposta desde os setores hegemônicos. Esses constructos servem para justificar a manutenção das hierarquias sociais nas quais os brancos ocupam uma posição privilegiada. Na luta pela superação das hierarquias, o corpo feminino precisa ser politizado (BASANTE, 2018).

Pensamento social

O desafio para o pensamento social é um desafio epistemológico de considerar outras epistemologias e outros pensamentos sociais que sequer foram ou são ouvidos. “Un factor importante de este desafío epistemológico ha sido las voces que se originan en la así llamada periferia, voces que cuestionan no solo la autoridad etnográfica de imaginar al “otro”, sino más significativamente, la hegemonía política de occidente.” (MURATORIO, 2018, p. 327).

A cegueira em relação a outras epistemologias contribui para manter as coisas como estão. A Constituição de 2008 reconhece que o conhecimento é plural e ancestral e reconhece também o monismo na definição de ciência, desafiando a geopolítica dominante do conhecimento branco e eurocentrado (WALSH, 2018). Todavia, a cegueira continua institucionalizada e a mudança implica desconstruir o que está construído.

Desenvolvimento regional

Como estamos falando de Equador, a guerra com o Peru fez com que as elites equatorianas ampliassem a ideia de comunidade política. “En consecuencia, las reformas introdujeron la noción de comunidades políticas locales inclusivas como complemento a las políticas sociales nacionales.” (NOGUERA, 2018, p. 400).

Nos artigos não se fala especificamente de desenvolvimento regional. Mas é interessante observar que “la indigenidad de los indios libres o evolucionados —los indios geográfica y socialmente móviles— desafió las estrategias de gobierno de las elites.” (NOGUERA, 2018, p. 405). A delimitação do território, a propriedade privada caminha na contramão da herança móvel das populações autóctones.

Na criação do estado-nação, projeto das elites, está a formação das sociedades nacionais. “Es central a la universalización de la civilización capitalista —incluyendo la explotación del trabajo— a la modernidad en sí, a la formación de las sociedades “nacionales” emergentes criollo-mestizas y al mismo proyecto de Estado-nación.” (WALSH, 2018, p. 413). A Constituição de 2008 considera outras nações dentro da nação que pode, por um lado, acomodar os ânimos dentro da institucionalidade e, por outro, contribuir para colocar em prática um projeto múltiplo e complexo de nações num só país.

Conclusões parciais sobre a Antologia do pensamento crítico equatoriano contemporâneo

Na composição da Antologia do pensamento crítico equatoriano são 13 homens e sete mulheres. Como estamos tratando de temas específicos (gênero, pensamento social e desenvolvimento regional) tratamos das autoras que lidam com esses temas. No caso dos estudos de gênero ressaltamos a importância, já na primeira metade do século XX, da construção de uma agenda própria do feminismo (ou dos feminismos) equatorianos. Se coloca também a importância para o feminismo de considerar a questão negra e indígena na construção dessa agenda. Já o pensamento social conta com um desafio que é o de considerar outras epistemologias e romper com o pensamento branco e eurocentrado. A Constituição equatoriana de 2008 avança nessa direção ao considerar outros conhecimentos e a necessidade de superar o monismo da ciência. O desenvolvimento regional não é tratado por nenhuma autora, mas achamos interessante refletir sobre o desafio posto por um lado, por uma cultura da propriedade privada e, por outro, por culturas móveis que desafiam os primeiros em seu projeto de poder e dominação. A Constituição de 2008 também avança nesse sentido ao considerar outras nações dentro da nação, mas apesar de concordarmos que esse já é um grande passo, a prática precisa também ser analisada.

Tratamos nesse pequeno texto de autoras e assuntos específicos contemplados pela Antologia do pensamento crítico equatoriano contemporâneo. Que essa pequena reflexão sirva de convite para a leitura da Antologia! Todos os artigos que compõem a Antologia são muito interessantes e estão disponíveis na íntegra no site do CLACSO!

Referências

BASANTE, Kattya Hernandéz. Resignificación y representación que hacen las mujeres afroecuatorianas sobre sus propios cuerpos. In: HERRERA, Gioconda (Ed.). Antología del pensamiento critico ecuatoriano contemporáneo. 1ª ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018, p. 501-513.

GOETSCHEL, Ana María. Orígenes del feminismo en el Ecuador. In: HERRERA, Gioconda (Ed.). Antología del pensamiento critico ecuatoriano contemporáneo. 1ª ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018, p. 469-499.

HERRERA, Gioconda (Ed.). Antología del pensamiento critico ecuatoriano contemporáneo. 1ª ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018.

MURATÓRIO, Blanca. Discursos y silencios sobre el Indio en la conciencia nacional. In: HERRERA, Gioconda (Ed.). Antología del pensamiento critico ecuatoriano contemporáneo. 1ª ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018, p. 327- .

WALSH, Caherine. “Raza”, metizaje y poder: horizontes coloniales pasados y presentes. In: HERRERA, Gioconda (Ed.). Antología del pensamiento critico ecuatoriano contemporáneo. 1ª ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018, p. 411-436.

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