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Mulheres que pensam o Brasil na Antologia CLACSO de 2018

Luciana Butzke

Este texto está vinculado a um projeto mais amplo intitulado: Mulheres que pensam o desenvolvimento na América Latina:  Contribuições presentes nas Antologias do Pensamento Social Latino-Americano e Caribenho publicadas pelo Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais no período de 2015 a 2017. O objetivo aqui foi o de mapear as contribuições das mulheres ao pensamento social regional latino-americano e à teoria do desenvolvimento regional presente na Antologia do pensamento crítico brasileiro contemporâneo publicada pelo CLACSO em 2018 (BRINGEL; BRASIL JR. 2018). O projeto contemplava o período de 2015 a 2017, mas decidimos incluir também as antologias que foram lançadas depois de 2017.

Na sequência, caracterizamos as autoras e seus temas, analisamos os artigos que contemplam a discussão sobre gênero, pensamento social, desenvolvimento e região e analisamos comparativamente as discussões de gênero, pensamento social, desenvolvimento e região e possíveis contribuições à teoria do desenvolvimento regional.

De 30 artigos publicados na Antologia do pensamento crítico brasileiro contemporâneo, oito artigos são escritos por mulheres. São elas: Elide Rugai Bastos, Emilia Viotti da Costa, Virgínia Fontes, Maria Isaura Pereira de Queiroz, Lélia Gonzalez, Heleieth Saffioti, Ana Maria Doimo e Evelina Dagnino (Figura 1).

Figura 1 – Antologia do CLACSO Brasil, fotos das autoras.

Legenda:

1 Elide Rugai Bastos

2 Emilia Viotti da Costa

3 Virginia Fontes

4 Maria Isaura Pereira de Queiroz

5 Lélia Gonzalez

6 Heleieth Saffioti

7 Evelina Dagnino

Das oito mulheres quatro nasceram no estado de São Paulo, uma no Rio de Janeiro e uma em Minas Gerais. Na formação delas consta Filosofia, História, Sociologia, Ciências Sociais e Jornalismo (Quadro 1).

Quadro 1 – Autoras da Antologia do CLACSO Brasil, estado de origem, nascimento e formação

NomeEstado de origemAno de nascimentoFormação Graduação
Elide Rugai BastosSão Paulo1937Filosofia
Emilia Viotti da CostaSão Paulo2018-2017História
Virgínia FontesRio de Janeiro1954História
Maria Isaura Pereira de QueirozSão Paulo1918-2018Sociologia
Lélia GonzalezMinas Gerais1935-1994História
Heleieth SaffiotiSão Paulo1935-1994Ciências Sociais
Ana Maria DoimoCiências Sociais
Evelina DagninoJornalismo

Fonte: Elaboração própria baseada em Bringel e Brasil Jr. (2018).

Os artigos selecionados para compor a antologia são os seguintes: Atualidade do pensamento social brasileiro (Elide Rugai Bastos), A dialética invertida: 1960-1990 (Emilia Viotti da Costa), Expropriações contemporâneas (Virgínia Fontes), O coronelismo desde uma interpretação sociológica (Maria Isaura Pereira de Queiroz), Racismo e sexismo na cultura brasileira (Lélia Gonzalez), Contribuições feministas para o estudo da violência de gênero (Heleieth Saffioti), A erosão do campo popular e as alternativas emergentes (Ana Maria Doimo) e Confluência perversa, perda de sentido, crise discursiva (Evelina Dagnino) (BRINGEL; BRASIL JR., 2018). Um dos artigos foi escrito na década de 1970, um na década de 80, dois na década de 90 e quatro na década de 2000 (Quadro 2).

Quadro 2 – Antologia do CLACSO Brasil, autoras artigos e ano de publicação

AutoraTítulo do artigoAno de publicação
Elide Rugai BastosAtualidade do pensamento social brasileiro2011
Emilia Viotti da CostaA dialética invertida: 1960-19901994
Virgínia FontesExpropriações contemporâneas2011
Maria Isaura Pereira de QueirozO coronelismo desde uma interpretação sociológica1976
Lélia GonzalezRacismo e sexismo na cultura brasileira1984
Heleieth SaffiotiContribuições feministas para o estudo da violência de gênero2001
Ana Maria DoimoA erosão do campo popular e as alternativas emergentes1995
Evelina DagninoConfluência perversa, perda de sentido, crise discursiva2004

Fonte: Elaboração própria baseada em Bringel e Brasil Jr. (2018).

Na leitura dos textos foi possível identificar a contribuição das autoras aos temas selecionados no projeto. Na sequência apresentamos resumidamente os pontos tratados pelas autoras.

Gênero

A contribuição de Lélia Gonzalez ao tema do gênero é tratar sua relação com raça. Ela aborda o que chama de neurose cultural brasileira mostrando a íntima relação que há entre o racismo e o sexismo. Há uma naturalização do racismo e do sexismo. “Negro menor de edad solo puede ser ladronzuelo o levantador de cartera, ya que hijo de pez, pescadito es. Mujer negra, naturalmente, es cucinera, muchacha, mucama, sirvienta, cobradora en autobús o prostituta.” (GONZALEZ, 2018, p. 568). Essa naturalização de que fala faz com que as pessoas não enxerguem sua origem africana. Para reforçar essa origem, Gonzalez (2018) passa a utilizar prietoguês (para indicar a influência africana no português) e Améfrica Ladina (termo que abre caminhos para uma compreensão mais profunda da América com a África).

Heleieth Saffioti vai abordar em seu artigo a violência de gênero no Brasil, indicando que só a ideologia de gênero não é suficiente para garantir a obediência das vítimas ao patriarca, sendo necessário o uso da violência. Ela identifica a resistência de gênero, interétnica e de classe. O papel dos cientistas sociais seria o de mostrar o relevo multicor presente na sociedade. A ênfase é mostrar que gênero não é apenas um fator da violência. É uma categoria histórica e analítica (SAFFIOTI, 2018).

Pensamento Social

O pensamento social é tratado por Elide Rugai Bastos a partir de reflexões de 1950/60 e em como antecipam questões atuais. Ela demonstra que a história das ciências sociais no Brasil se confunde com o debate sobre desenvolvimento. Outros temas importantes envolvem o debate sobre marginalidade e mudança social. O que se enfatiza é que é preciso pensar a partir da periferia do sistema social para visualizar melhor os problemas e sistematizá-los (BASTOS, 2018).

Desenvolvimento regional

Dos artigos publicados apenas um trata da questão regional: O coronelismo desde uma interpretação sociológica, escrito por Maria Isaura Pereira de Queiroz em 1976. O coronelismo é um aspecto essencial e original na estrutura política do Brasil na Primeira República. Ela fala em estrutura coronelística regional que envolve identificar se o controle é de apenas um coronel ou de uma parentagem. Os traços econômicos e políticos seriam consequências dessa dinâmica regional. As regiões mais ricas constituíram desde a época colonial as sedes efetivas do poder político. Ocorre que com o crescimento demográfico, a urbanização e a industrialização houve a decadência do coronelismo. Todavia, a desaparição do coronelismo não é progressiva nem regular (QUEIROZ, 2018).

Conclusões parciais sobre a Antologia do pensamento crítico brasileiro contemporâneo

Na composição da Antologia do pensamento crítico brasileiro há um número maior de homens do que de mulheres. Das oito mulheres que aparecem na Antologia, duas discutem gênero, uma escreve sobre pensamento social e uma sobre desenvolvimento regional. A discussão sobre gênero remete a relação com raça e classe social e mostra uma naturalização do preconceito e da violência de gênero. Em relação ao pensamento social, esse tem uma caminhada compartilhada com o tema do desenvolvimento. No caso da discussão sobre desenvolvimento regional, há evidências das raízes coronelistas no desenvolvimento regional do Brasil, mas também seu esgotamento progressivo com o crescimento demográfico, urbanização e industrialização.

Cabe lembrar a importância dos oito textos presentes na coletânea, que aqui são mais uma vez selecionados em relação a temas previamente definidos.

Referência

BASTOS, Elide Rugai. Actualidad del pensamento social brasileño. In: BRINGEL, Breno; BRASIL JR., Antonio (Coord.). Antología del pensamento crítico brasileño contemporáneo. 1ª ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018, p. 123-138.

BRINGEL, Breno; BRASIL JR., Antonio (Coord.). Antología del pensamento crítico brasileño contemporáneo. 1ª ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018.

GONZALEZ, Lélia. Racismo y sexismo en la cultura brasileña. In: BRINGEL, Breno; BRASIL JR., Antonio (Coord.). Antología del pensamento crítico brasileño contemporáneo. 1ª ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018, p. 565-583.

QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de. El coronelismo desde una interpretación sociológica. In: BRINGEL, Breno; BRASIL JR., Antonio (Coord.). Antología del pensamento crítico brasileño contemporáneo. 1ª ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018, p. 445-482.SAFFIOTI, Eleieth. Contribuiciones feministas para el estúdio de la violencia de genero. In: BRINGEL, Breno; BRASIL JR., Antonio (Coord.). Antología del pensamento crítico brasileño contemporáneo. 1ª ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018, p. 585-601.

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