Gênero, Mulheres

O documentário “Absorvendo o tabu” e o dia 8 de março

O texto que segue traz uma reflexão sobre o documentário “Absorvendo tabu” e o dia 8 de março. Ele serviu de base para a mesa redonda no evento Universidade Aberta da Universidade Regional de Blumenau no dia 8 de março de 2019.

Vou começar me referindo à dificuldade de falar sobre outra realidade distinta da nossa. Não foi fácil elaborar uma reflexão a partir do documentário. Ele me pareceu rápido e precipitado ao tratar de um tema tão complexo e tão enraizado culturalmente. Precisei pesquisar um pouco mais, ler sobre o assunto e assistir outros filmes para tecer essa reflexão.

Um primeiro ponto que nos choca no documentário é a dificuldade das mulheres e homens de lidar com coisas tão naturais como o funcionamento do corpo da mulher e a menstruação. E é assustador pensar que o documentário é de 2018. E é assustador que durante os cinco dias do fluxo as mulheres ficam impuras e dormem fora de casa. Um ponto que quero recuperar mais à frente é a facilidade que em geral se tem ao olhar a cultura do Outro e se surpreender, e ao olhar a própria cultura se adota a normalidade.

Um segundo ponto é o uso do absorvente. O homem que inventou a máquina que aparece no documentário perdeu esposa, irmãs, mãe, amigos e familiares e precisou sair da sua aldeia de origem. Ninguém aceitava que um homem se preocupasse com os assuntos femininos, principalmente os assuntos considerados impuros. Esse homem foi considerado imoral. Aqui nos deparamos com questões culturais e com a influência “de fora”. Nossas avós e mães usaram panos, nós usamos absorventes e hoje muitas de nós já usamos absorventes reutilizáveis. A consciência crítica nos faz questionar a produção industrializada, o descartável, o lixo produzido.

Um terceiro ponto é a saúde da mulher. A motivação do homem que inventou a máquina de absorventes foi o questionamento da tradição e o fato das mulheres utilizarem nos dias de menstruação apenas panos sujos para se protegerem. Isso comprometia a saúde delas, seus estudos, sua vida social e vida familiar. Elas ficavam 5 dias longe de suas atividades cotidianas e afastadas do ambiente doméstico.

Um quarto ponto é o econômico. Um pacote de absorventes custava 55 rúpias e o absorvente que ele veio a fazer depois custava 2 rúpias. A ideia do inventor da máquina não era ganhar dinheiro criando uma grande empresa. Ele quis vender a máquina a preço de custo para que as mulheres produzissem absorventes em suas próprias aldeias. Aqui podemos falar em tecnologia apropriada, tecnologia social. Impossível não lembrar nesse quesito de um indiano e de uma indiana: Mahatma Gandhi e Vandana Shiva. Ambos trataram de refletir sobre “violência estrutural” (no caso de Gandhi) e das “monoculturas da mente” (Vandana Shiva) e propor formas de resistência culturalmente enraizadas, mas que não necessariamente aceitam todas as tradições. Das tradições procuram manter aquilo que é bom e faz bem para as pessoas. Aquilo que causa desconforto pode e deve ser transformado, adequado. Arrisco a dizer que a reflexão do inventor da máquina não foi tão longe…

Em vista do que pontuei acima, cabem algumas perguntas que, na minha opinião, ficam em aberto:

  • A fabricação e uso dos absorventes é a melhor alternativa? Existem outras? Quais?
  • A saúde da mulher é um tema complexo. Usar panos sujos em áreas íntimas pode não ser o mais adequado, mas deveríamos ter o cuidado de comparar dados sobre a saúde delas e a nossa saúde. Será que somos mais saudáveis porque usamos produtos industrializados? Não serão elas mais saudáveis, mesmo não tendo acesso a absorventes e produtos industrializados?
  • O uso do absorvente ou do pano não rompe com a sociedade patriarcal e misógina que nos cerca. Se usarmos uma metáfora, o armário sendo a sociedade patriarcal e o absorvente, um objeto do armário, podemos inferir que trocar um objeto por outro não vai mudar o armário. Precisamos questionar o armário! Os pequenos debates são importantes, como esse sobre a menstruação. Mas como não ficar apenas nas bordas e encarar um debate amplo sobre o funcionamento da sociedade como um todo? Acho que precisamos enfrentar o armário!
  • Se me espanto com a dificuldade dos indianos e indianas de lidar com a menstruação, por que não me espanto com os nossos silêncios cotidianos? Quais são esses nossos silêncios? Das mulheres que sofrem violência diariamente? Que apanham e são mortas pelos seus companheiros? Das pessoas trans, dos gays, das lésbicas, das mulheres e homens e indígenas e negros que sofrem violências diversas dentro e fora da família? E isso acontecendo legitimado pela política hoje institucionalizada no país em que (sobre) vivemos?

Que relação esses pontos e questões trazem para o dia 8 de março? O documentário de lá deve servir para nos conectarmos com as lutas de cá!

Nesse oito de março precisamos superar os nossos silêncios e recuperar as nossas lutas. Precisamos falar dos ataques à democracia, das ameaças da reforma da previdência, da perda de direitos, da violência machista e de tantas outras lutas. Num país em que a primeira e única presidenta mulher foi deposta e precisou resistir a discursos misóginos, em que políticos dão declarações de ódio e são elogiados, precisamos seguir resistindo. Num país em que “falar sobre” e “aceitar” a diversidade sexual e de gênero é fazer “ideologia de gênero”, precisamos seguir resistindo. O movimento #elenão foi um exemplo de luta, das mulheres e homens que resistem e precisam continuar resistindo. Marielle, presente. Sabrina Bittencourt, presente. Jean Willys, presente. Débora Diniz, presente. Bianca Mayara Wachholz, presente. Desconhecidas que apanham e são mortas todos os dias, presentes! Nós todas e todos aqui, estamos presentes? Não podemos mais calar, precisamos nos posicionar.

Por uma educação sem mordaça! Por uma educação compromissada com a diversidade em todas as suas formas. Uma educação que não ensine apenas um caminho possível. Uma educação que faça perguntas e não apenas dê respostas rápidas – em geral, as repostas dadas pelos poderosos. Uma educação que liberte e cultive o que há de melhor em cada ser humano!  Que desperte a humanidade em nós que tem sido impedida de se expressar plenamente. Que consigamos superar o que nos limita! Que consigamos estar presentes e juntas: # NÓSSIM.

Luciana Butzke

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