Pensamento social

Silvia Rivera Cusicanqui e sua luta para sonhar os próprios sonhos

O desafio dessa série de textos curtos é falar da presença das mulheres no pensamento social latino-americano e identificar possíveis contribuições delas ao campo do desenvolvimento regional.

A mulher que abre a série é Silvia Rivera Cusicanqui: nascida em 1949 em La Paz, Bolívia, mulher, mestiça, filha de Carlos A. Rivera e Gaby Cusicanqui, descendente do Inca Tupac Yupanqui.

Cusicanqui é socióloga, historiadora e ativista. Ela fala de uma sociologia encarnada, que pulsa nos corações das pessoas de carne e osso e não apenas das teorias. A obra de Silvia é uma confluência de muitas inspirações: das imagens, do “não falado”, das cosmologias aymara e quechua, dos latino-americanos e latino-americanas que vivem, sentem e pensam a nossa terra, de tantos outros seres humanos que vivem em outros lugares e ousaram pensar a contrapelo do modelo hegemônico ocidental.

Ela afirma que precisamos conceber nossa própria genealogia do conhecimento, sem sobrevalorizar o conhecimento acadêmico em sua relação com outras formas de conhecimento. Para ela, não estamos em condições de falar de pensamento decolonial nem pós-colonial: o decolonial é uma moda e o pós-colonial um desejo. Cusicanqui prefere usar o termo anticolonial.

Que contribuições Silvia Rivera Cusicanqui traz ao desenvolvimento regional?

Suas contribuições se desenham na crítica dos conceitos “camisa de força”, dentre eles: o desenvolvimento e as várias espacialidades construídas pelo poder (aí entraria a região e outras escalas geográficas).

Cusicanqui questiona o discurso e prática hegemônica do desenvolvimento e sua substituição pelo Bem Viver. Para ela, os termos mudam, mas a lógica de exploração não. E essa exploração se sustenta na democracia representativa, que se baseia, principalmente, na representação de partidos políticos. No caso da Bolívia, 36 etnias são reconhecidas, mas apenas sete estão no parlamento. Ela nos provoca a pensar uma democracia representativa para além dos partidos políticos, que fosse compatível com a diversidade. Nessa democracia, os grupos e lutas anticoloniais teriam representação, as elites seriam minoria e o autogoverno passaria a ser uma realidade.

Para Cusicanqui, há uma geografia ampla e sagrada que não se traduz em um território nacional e/ou em um Estado. Ao longo da história da Bolívia, as etnias existentes acabaram se conformando em espaços circunscritos, que não existiam antes dos espanhóis. A autonomia foi cedendo lugar à centralização excessiva do Estado e à dependência. Segundo ela, haveria nas espacialidades existentes, uma identidade masculina, chamada Mapa e uma identidade feminina chamada Tecido. A identidade Mapa mais circunscrita e definida; e a identidade Tecido mais permeável e dinâmica. Na combinação entre as duas, surge o território, que seria a única forma de resistir ao Estado e de repensar o próprio território.

É a experiência vivida que Cusicanqui usa para pensar criticamente os conceitos que nos propomos a analisar: desenvolvimento e região. Ambos desconsideram nossa trajetória histórica antes da chegada dos colonizadores. A civilização e o desenvolvimento é o que os colonizadores de ontem e de hoje trazem para resolver os problemas que não criamos. As espacialidades que vão se construindo e reconstruindo “no” e “pelo” poder nos limitam e materializam sonhos que não são os nossos, mas passam a ser.

Na América Latina, com a ascensão de governos cada vez mais alinhados com as elites “de fora e de dentro”, as ameaças às lutas anticoloniais e aos movimentos sociais, a ameaça de invasão da Venezuela e outros tantos “passos atrás”, precisamos desconstruir o que aprendemos, pensar para além e para fora dos conceitos coloniais (de ontem e de hoje) e dos espaços construídos pelo poder. “Deixar de lado”, “superar” o que nos limita e lutarmos para sermos simplesmente humanos, sonharmos os nossos próprios sonhos, finalmente, acordados!

 

Referências lidas, vistas e escutadas:

BARBER, Kattalin. Entrevista com Silvia Rivera Cusicanqui. 17/02/2019. Disponível em: https://www.elsaltodiario.com/feminismo-poscolonial/silvia-rivera-cusicanqui-producir-pensamiento-cotidiano-pensamiento-indigena#. Acesso em: 22/02/2019.

CACOPARDO, Ana. Historias debidas VIII: Silvia Rivera Cusicanqui. 18/04/2018. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1q6HfhZUGhc. Acesso em: 22/02/2019.

CUSICANQUI, Silvia Rivera; SORIA, Virginia Aillón. Antología del pensamento crítico boliviano contemporâneo. 1ª ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2015.

CUSICANQUI, Silvia Rivera. Sociología de la imagen: ensayos. 1ª ed. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Tinta Limón, 2015.

CUSICANQUI, Silvia Rivera. Violencias (re)cubiertas en Bolívia. La Paz: La mirada salvage; Eidtorial Piedra Rota, 2010.

CUSICANQUI, Silvia Rivera. Oprimidos, pero no vencidos. 4ª ed. La Paz: La mirada Salvaje, 2010.

SANTOS, Boaventura de Souza. Entrevista com Silvia Rivera Cusicanqui. 16 de outubro de 2013. Disponível em: http://alice.ces.uc.pt/en/index.php/santos-work/conversation-of-the-world-iv-boaventura-de-sousa-santos-and-silvia-rivera-cusicanqui-2/?lang=pt. Acesso em: 22/02/2019.

Foto que ilustra o texto:

Disponível em: http://lapeste.org/2017/06/silvia-rivera-cusicanqui-seguir-mirando-a-europa-es-apostar-por-un-suicidio-colectivo-entrevista/. Acesso em: 22/02/2019.

Para conhecer mais sobre o coletivo que ela coordena:

http://colectivachixi.blogspot.com/

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